‘Valentin’, por Bijou Monteiro / Defina Cine #3

Bijou Monteiro aceita o convite do Embrulhador e nos apresenta um de seus achados: o filme argentino ‘Valentin’.


"Até outro dia, eu não sabia que Pedro Almodóvar tinha filhos. Era notório que ele reificava a própria mãe nas destemidas personas femininas de seus filmes, mas descobrir ‘Valentin’ foi inesperado.

Conheci o menino acidentalmente, procurando saber quais filmes recentes de Carmen Maura eu ainda não havia visto. Ela, musa laureada de Almodóvar, ora à beira de um ataque de nervos, ora ressurgindo dos mortos, é uma das pupilas mais queridas do mestre que a conduziu ao que define cinema para mim.

O que você precisa saber, tecnicamente, é que ‘Valentin’ é um filme argentino de 2002 e ambientado em 1960. Dirigido por Alejandro Agresti, o longa foi selecionado para tentar uma vaga entre os candidatos ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2003. A empreitada pode ter sido frustrada, mas rendeu a Alejandro o passaporte premiado para Hollywood e a direção do açucarado ‘A Casa do Lago’. No entanto, em termos sensoriais, ‘Valentin’ é a saga de um herói cotidiano de 9 anos de idade, criado pela avó (personagem de Maura) e narrado a partir de palimpsestos absorvidos de Almodóvar e sua filmografia.

Valentin leva uma vida humilde no subúrbio argentino com a avó cardíaca e inconformada com a viuvez recente. Foi abandonado pela mãe ainda pequeno e tem na figura paterna uma triste mistura de omissão e agressividade, ambos fatores determinantes para a fuga desesperada da matriarca. O menino, estrábico e franzino, sonha em ser o primeiro astronauta argentino no espaço e, para tal feito, treina incessantemente a bordo de engenhocas criadas por ele para poupar o orçamento apertado da avó.

Mesmo antes de celebrar sua primeira década de vida, Valentin tem fé inabalável de que tudo na vida é transitório, especialmente as pessoas que passam por ela. A morte do avô e as visitas esparsas do pai e do tio favorito rendem ao menino desilusões prematuras e a busca desabalada por constância. Em meio à desconstrução de sua infância, Valentin descobre em Rufo, seu vizinho boêmio, um amigo fiel e capaz de não subestimar a tenra idade e a maturidade crua do menino. Todavia, é em Letícia, a nova namorada do pai ausente, que Valentin vislumbra a concretização de seu maior sonho.

Ao seguir à risca a máxima de que os homens preferem as loiras, o menino deseja ter uma nova mãe bonita, inteligente e carinhosa, capaz de libertá-lo das marcas do abandono e amá-lo incondicionalmente. Talvez Valentin nem saiba, mas Almodóvar, inconscientemente, projetou em ‘Tudo sobre a minha mãe’, de 1998, uma Cecilia Roth capaz de tudo para proteger e criar seu rebento.

Nessa bricolagem de língua latina, o que define cine é que somos todos escapistas e humanistas ao mesmo tempo. Temos nossas vidas contadas por diálogos catárticos, cores quentes, chegadas, partidas e desconstruções constantes. O que importa, ao final de tudo, é que há sempre um Valentin para nos lembrar de que a conquista do espaço é muito pouco diante de nossos sentimentos mais singelos e perenes".

VALENTIN  (2002). Dirigido e escrito por Alejandro Agresti. Filmado em Buenos Aires, na Argentina. Elenco principal: Rodrigo Noya, Carmen Maura, Julieta Cardinali, Jean Pierre Noher e Mex Urtizberea.